CAPÍTULO
1.2
A
Oposição Histórica Entre Cultura Popular e Cultura de Elite.
O tema acima
proposto e que opõe cultura popular e cultura de elite para fins de análise
teórica e conceitual-metodológica é o prosseguimento de um texto de minha
autoria, intitulado *Flâneur, iniciado na estreia do blog
Cultura
Ao Lado e que pode ser revisitado na listagem lateral de posts deste
espaço.
São incontáveis
os trabalhos na área das Ciências Sociais que fornecem conteúdo satisfatório
para a mínima compreensão da oposição conceitual entre elite e popular na
atmosfera de produção cultural material e imaterial como um todo. É bem certo
que desde outros textos que produzi para publicação neste espaço com temática
específica, procuro deixar destacada a busca em discutir uma oposição no campo
teórico, pois entendo que no campo prático esses universos se entrecruzam, em
maior ou menor grau, de acordo com os limites de acessibilidade, bem como em
contextos históricos a que se deve delimitar. Em seu artigo de título Cultura
Popular:
Entre a Tradição e a Transformação, Vivian Catenacci cita alguns
estudiosos que foram fundamentais para discutir aquilo que aqui proponho. Assim
como bem destaca essa autora, por exemplo, Ortiz (1985) apontava que já durante
o século XVII era frágil a fronteira entre cultura popular e a nobreza, pois a
última compartilhava do consumo de alguns dos rituais da primeira, sendo mais
rígido o acontecimento do inverso. Com o passar do tempo, principalmente por
motivos de ordem política, essa fronteira foi se enrijecendo, com a
marginalização dos cultos populares e sua consequente perseguição. Mas é
justamente nessa passagem dos estudos de Ortiz (1985) muito bem exaltado por
Vivian Catenacci a que quero me deter com maior cuidado: o período de
afastamento entre essas culturas e perseguição de uma para com a outra
(fundamentalmente a partir do conhecido desencantamento do mundo, que
permitiu a cisão entre moderno e tradicional) partiu de uma conduta de
fortalecimento da blindagem da nobreza, pois se preocupavam com manifestações
que pudessem causar tumultos como, por exemplo, o carnaval. No caso específico
do Brasil, o carnaval de cunho crítico já fora censurado pela imprensa para
proteger a imagem das governanças que, atualmente, são as principais
financiadoras de uma festa que abrilhanta o país e “afugenta” suas mazelas dos
olhares do público consumidor.
A “pesagem” das
culturas populares e de elite ganhou novos traços a partir do século XIX, com a
libertação
do irracional. A novidade era o desenvolvimento do domínio da natureza
pela ciência, ou seja, de formas racionais de organização social e de
pensamento, excluindo (ou buscando excluir) o mito, o rito, a religião, a
superstição, componentes clássicos de culturas populares e sendo substituídos
pela crença na ciência, pela disciplina, obediência e submissão. Neste
contexto, a internacionalização da cultura como produto através das novas
tecnologias foi essencial para a exaltação de uma em detrimento de outra, essa
última considerada como arcaica e, portanto, inapropriada para os padrões de
modernidade a que se pretendia alcançar.
O recorte
contextual priorizado até esta etapa de nossa revisão de apenas alguns dos
fatos que engendram a diversidade dos estudos da cultura popular mostra que a
modernidade criou mais que apenas a tensa dicotomia entre cultura popular e de
elite, mas também, dentre outras, a separação de territórios que comportam
essas culturas como cidade e campo, criando a impessoalidade. É justamente a partir
dessa nova condição de implantação das grandes tecnologias que transformaram a
sociedade e suas formas de produção que iremos nos deter nas próximas fases
dessa proposta.
Para
não me estender por demais, concluo aqui essa fase da discussão e me preparo
para a publicação do segundo capítulo em breve.
Obrigado
a todos e até a próxima!
*O texto possui
uma previsão total de três capítulos.