segunda-feira, 4 de junho de 2012

Flâneur (part.2)


CAPÍTULO 1.2

A Oposição Histórica Entre Cultura Popular e Cultura de Elite.

O tema acima proposto e que opõe cultura popular e cultura de elite para fins de análise teórica e conceitual-metodológica é o prosseguimento de um texto de minha autoria, intitulado *Flâneur, iniciado na estreia do blog Cultura Ao Lado e que pode ser revisitado na listagem lateral de posts deste espaço.


São incontáveis os trabalhos na área das Ciências Sociais que fornecem conteúdo satisfatório para a mínima compreensão da oposição conceitual entre elite e popular na atmosfera de produção cultural material e imaterial como um todo. É bem certo que desde outros textos que produzi para publicação neste espaço com temática específica, procuro deixar destacada a busca em discutir uma oposição no campo teórico, pois entendo que no campo prático esses universos se entrecruzam, em maior ou menor grau, de acordo com os limites de acessibilidade, bem como em contextos históricos a que se deve delimitar. Em seu artigo de título Cultura Popular: Entre a Tradição e a Transformação, Vivian Catenacci cita alguns estudiosos que foram fundamentais para discutir aquilo que aqui proponho. Assim como bem destaca essa autora, por exemplo, Ortiz (1985) apontava que já durante o século XVII era frágil a fronteira entre cultura popular e a nobreza, pois a última compartilhava do consumo de alguns dos rituais da primeira, sendo mais rígido o acontecimento do inverso. Com o passar do tempo, principalmente por motivos de ordem política, essa fronteira foi se enrijecendo, com a marginalização dos cultos populares e sua consequente perseguição. Mas é justamente nessa passagem dos estudos de Ortiz (1985) muito bem exaltado por Vivian Catenacci a que quero me deter com maior cuidado: o período de afastamento entre essas culturas e perseguição de uma para com a outra (fundamentalmente a partir do conhecido desencantamento do mundo, que permitiu a cisão entre moderno e tradicional) partiu de uma conduta de fortalecimento da blindagem da nobreza, pois se preocupavam com manifestações que pudessem causar tumultos como, por exemplo, o carnaval. No caso específico do Brasil, o carnaval de cunho crítico já fora censurado pela imprensa para proteger a imagem das governanças que, atualmente, são as principais financiadoras de uma festa que abrilhanta o país e “afugenta” suas mazelas dos olhares do público consumidor.

A “pesagem” das culturas populares e de elite ganhou novos traços a partir do século XIX, com a libertação do irracional. A novidade era o desenvolvimento do domínio da natureza pela ciência, ou seja, de formas racionais de organização social e de pensamento, excluindo (ou buscando excluir) o mito, o rito, a religião, a superstição, componentes clássicos de culturas populares e sendo substituídos pela crença na ciência, pela disciplina, obediência e submissão. Neste contexto, a internacionalização da cultura como produto através das novas tecnologias foi essencial para a exaltação de uma em detrimento de outra, essa última considerada como arcaica e, portanto, inapropriada para os padrões de modernidade a que se pretendia alcançar.  

O recorte contextual priorizado até esta etapa de nossa revisão de apenas alguns dos fatos que engendram a diversidade dos estudos da cultura popular mostra que a modernidade criou mais que apenas a tensa dicotomia entre cultura popular e de elite, mas também, dentre outras, a separação de territórios que comportam essas culturas como cidade e campo, criando a impessoalidade. É justamente a partir dessa nova condição de implantação das grandes tecnologias que transformaram a sociedade e suas formas de produção que iremos nos deter nas próximas fases dessa proposta.

Para não me estender por demais, concluo aqui essa fase da discussão e me preparo para a publicação do segundo capítulo em breve.

Obrigado a todos e até a próxima!           
  

*O texto possui uma previsão total de três capítulos.