Vivemos num grande teatro, encenando papéis sociais de relevâncias diversas, passando de cena em cena, apresentando publicamente nossas atividades, conquistas,
desejos, problemas/insatisfações, fúrias, que fortalecem nossos vínculos,
reiteram um lugar nas relações e constroem nossos perfis sociais, externos e
internos, numa luta contínua por experiências que nos preparem para as próximas
peças. Uma das teorias
mais atraentes para mim, enquanto aspirante a sociólogo, são as do canadense Erving Goffman, nascido em junho de 1922, especialmente as do livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana (The Presentation of Self in Everyday Life), publicado em 1959 e traduzido e publicado no Brasil no ano de 1985. Utilizando conceitos próprios do universo teatral, Goffman expõe uma importante teoria sobre a vida em sociedade. Gosto dessa perspectiva pela facilidade que tenho em conversar com o autor, fundamentalmente sobre aspectos mais atuais. Entretanto, não indico aqui a ausência de brechas nessa teoria, apenas tomo-a como pano de fundo do que quero tratar.
mais atraentes para mim, enquanto aspirante a sociólogo, são as do canadense Erving Goffman, nascido em junho de 1922, especialmente as do livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana (The Presentation of Self in Everyday Life), publicado em 1959 e traduzido e publicado no Brasil no ano de 1985. Utilizando conceitos próprios do universo teatral, Goffman expõe uma importante teoria sobre a vida em sociedade. Gosto dessa perspectiva pela facilidade que tenho em conversar com o autor, fundamentalmente sobre aspectos mais atuais. Entretanto, não indico aqui a ausência de brechas nessa teoria, apenas tomo-a como pano de fundo do que quero tratar.
Somos atores,
mas também somos os espectadores das peças que encenamos.
Desempenhamos papéis sociais, dependemos das interações de outros atores
para que esses papéis sejam legitimados, mas também temos direito aos bastidores,
onde podemos reorganizar nossas ações e refletir sobre as táticas para
representações cada vez mais convincentes. Estou necessariamente tratando deste
assunto por um motivo em específico, que me chamou bastante atenção nas últimas
semanas: Catadoras de lixo viram
atrizes e levam peça ao Linda Mascarenhas. O título da matéria,
publicada no dia 22 de julho deste ano, no portal alagoano Tudo na Hora proporcionou certa surpresa aos que receberam tal
notícia. Durante o compartilhamento da informação nas redes sociais, como
Facebook e Twitter, percebi um burburinho, tanto quanto inesperado, de pessoas
pegas de surpresa pela descoberta destes talentos. Então, resolvi tentar
compreender o motivo desses comportamentos.
Tomar
conhecimento de que um policial é, em seu seio doméstico, grande
pintor, o padeiro é artesão nato, a faxineira costura lindas colchas de pano, a
professora de matemática é ótima nos patins, nos leva a sentimentos intrigantes
provocados pela manutenção da ideia de papéis sociais erroneamente tidos como
inflexíveis. Percebemos muito disso nas formações educacionais de famílias
tradicionais, quando os pais tendem a “escolher”, por assim dizer, as
profissões de seus filhos, impondo-lhes seus papéis no teatro da
vida e desconsiderando suas potencialidades, ou, para ser mais incisivo,
buscando excluí-las permanentemente do desenvolvimento individual de seus
entes. No caso das catadoras de lixo, por quais motivos nos impressionamos?
Catar lixo, atividade certamente levada à frente por necessidades econômicas
extremas, não exclui a flexibilidade de cada uma delas para encenar
outras realidades. O que nos faz desconsiderar outras formações/aptidões? Quais
os fatores históricos e culturais que nos impõe um único papel (pelo menos em
algumas realidades)? Goffman ressaltou
que o ator em questão deve apenas manter certa coerência e ajustar seus
novos papéis às condições do meio, mas não promoveu em sua teoria a
imobilidade. Nem podemos nós promove-las como divindades inseparáveis de seus
templos/corpos. Por tanto convívio com informações diárias em abundância, sejam
elas formais ou informais, seria impossível considerar que o indivíduo
sobrevive do desempenho de uma única atividade (não falo em sobrevivência do
ponto de vista econômico, mas cognitivo), pois a concentração de saberes é
inevitável e sua necessidade de existir e se fazer enxergar superam os estudos
formais em universidades ou cursos profissionalizantes.
Já que,
segundo este autor em questão, uns atores incentivam os outros e
justificam seus respectivos papéis, as catadoras de lixo lá da Vila Emater só precisavam de um ator,
enquanto fator estimulante, para desabrocharem a uma nova virtude. Esse ator,
foi o diretor de teatro Carlos Lagoeiro,
que montou um espetáculo sobre reciclagem, a ser apresentado no Espaço Cultural Teatro Linda Mascarenhas,
nos meses de julho e agosto, numa realização do Projeto CataAtores.
Sem sombra
de dúvidas não cheguei nem perto de dar conta da teoria de Erving Goffman no livro supracitado, o que seria importante para
uma análise um pouco mais completa. Mas, só de pincelar alguns traços das
ideias deste autor, podemos perceber que, por exemplo, o indivíduo provindo de
localidades mais tradicionais e economicamente atrasadas, como as do interior do Estado, receberam
ensinamentos unilaterais sobre seus papéis no mundo e, portanto, ainda
desconhecem as possibilidades a que podem desenvolver. São muitos os papéis
que se pode adotar, são muitas as condutas possíveis para um individuo com tendência a ser altamente flexível. No entanto, para aqueles que se debruçaram sobre uma vida
limitada por uma ou duas funções apenas, ouvir dizer que até no lixão nasce
flor* só lhes causam estranheza e indiferença.
*Racionais MC’s, “Vida Loka”.
*Imagem extraída de: poesiascatiagarcia.blogspot.com
Já que citei um trecho de uma das
músicas dos Racionais MC’s, fique com ela aí abaixo, só pra descontrair. Até a
próxima!

