quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Rock na veia, skate no pé e a guerra diária contra o marasmo da terrinha



O tempo todo, por todo o tempo, grupos diversos de jovens buscam romper o marasmo de suas comunidades a todo custo, deixando suas marcas, aflorando suas humanidades e dando cara aos seus mundos. Em grandes centros urbanos essa tarefa é um pouco mais simples, pela pluralidade de atividades e oportunidades de engajamento, direitos que muitos outros grupos anteriores de jovens conseguiram com um processo exaustivo de se fazer perceber e, portanto, existir. Já em municípios como Murici/AL, com cerca de 26 mil habitantes apenas, a busca é bastante tensa e ainda deve superar os olhares julgadores das senhorinhas que se escoram nas janelas de suas casas pra ver o tempo passar e se suicidar rapidamente, sem muito o que fazer. É justamente nessa busca por novos desafios de libertação que apresento-lhes a centralidade desse post, um cara que escolheu algo radical pra mostrar o melhor de si. Aqui, homem e skate, skate e homem, juntos, como parte do mesmo corpo. Conheçam Acácio, que manja muito no que faz e prova na prática que por essas bandas tem gente fazendo arte com os pés, mas dessa vez não no futebol (se preferir, clique na imagem a seguir e navegue pelo Lightbox).






José Acácio da Silva Vasconcelos é um skatista/acrobático muriciense que sobrevive nessa atividade com muita perseverança, por um lado pela falta de empenho de outros skatistas municipais (sim, eles existem!) a levarem a prática à frente e se articularem e, principalmente, pela ausência de apoio de órgãos (sim, eles existem!) que promovam mais o segmento, com eventos, pra citar uma possibilidade rentável ao município. Engajado, Acácio sempre tomou conhecimento dos campeonatos de skate pelos grupos de discussão nas redes sociais, como o facebook e, por iniciativa própria, se direcionou as competições, mesmo com certa resistência de pessoas próximas. Até agora, já participou de dois torneios, todos na capital Maceió. É o único jeito que encontra pra buscar se aperfeiçoar e ser competitivo no que melhor sabe fazer, além de ser o único espaço viável que potencializa seu ânimo de andar em cima de uma prancha, na correria diária, entre escola e outros afazeres, com Slipknot (uma de suas bandas prediletas) servindo como principal trilha sonora, motivadora pra superação de seus desafios, não apenas no asfalto das ruas, mas de vida. Segundo Acácio, já tentou até fazer campeonatos na cidade alagoana de Murici, mas não conseguiu um simples apoio local para mover... Isso mesmo! Mover os obstáculos de um lugar para o outro. Coisas que uma mente aberta resolveria... Ou um caminhão! (risos). Mas chega de papo e vamos ver mais fotos. 








Acácio começou a concretizar esse sonho de andar sob as quatro pequenas rodas quando ainda tinha 2 anos de idade, ao pedir um skate a sua madrinha de presente de aniversário. Boa pedida! Como companheiros de atividade radical, ele sempre cita Tomás e Flávio, amigos inseparáveis e praticantes do esporte que ainda teima em acontecer no município, mesmo sem incentivos. Disse ele que é possível sim fazer campeonatos em Murici (dependendo da complexidade da categoria a ser disputada, claro!). Segundo o skatista, amigos de outros municípios já se dirigiram a Murici apenas para praticar as manobras, o que, junto a outros muitos fatores (como praticantes locais) por si só já se caracterizaria em uma cena local pouco organizada, mas existente e atuante. No caso específico dessa cidade, daria tranquilo pra promover o estilo intitulado Jam Session, onde cada competidor teria um tempo cronometrado pra apresentar seu repertório de manobras.

Dentro do que de melhor colheu nos campeonatos que participou, com certeza está a experiência. Acácio cita que competidores veteranos analisavam as manobras, por cerca de 10 minutos. Assim, grandes nomes do skate alagoano, alguns de destaque nacional, foram pano de fundo das acrobacias desse muriciense que não escapou da responsabilidade de defender essa linha de esporte e entretenimento radical para fora dos limites da cidade, mesmo depois de certa repressão, o que ainda o impede de adotar a carreira em seu nível profissional.



Na cidade de Murici, um pequeno grupo organizado (incluindo Acácio) desenvolveu um projeto super bacana para implantação de uma área ampla de entretenimento e lazer, no intuito de reutilizar um espaço atingido pelas últimas enchentes e hoje pouco (ou nada) utilizado. Dentre os vários formatos do parque, estava uma pista de skate, não apenas para atender o público praticante já existente, mas também para promover o aprendizado de crianças e jovens interessados em ingressar. Bacana mesmo, né?! O projeto de elaboração do espaço ainda continua em fase de construção, mas desde já adiantamos o óbvio: é preciso apoio, incentivo dos líderes do município ou de empresas privadas para acolher ideias como essas, que podem dar novos direcionamentos a juventude em comunhão com o esporte. 

Acácio possui muitas expectativas pra essa atividade. Cita a necessidade de competições, de mais competidores muricienses e a importância em haver, quem sabe, uma loja de produtos especializados. Mesmo que, num primeiro momento, ainda não se tenha público suficiente pra consumir em grande escala, uma pequena loja, aos olhos de Acácio, incentivaria sim a busca por esses produtos radicais e despertaria o interesse de muitos em praticar, além de dar total apoio aos torneios locais. Seria uma jogada empresarial de risco, mas estimularia a área. Algum empresário se disponibiliza? Quem sabe num futuro próximo... 

Por enquanto, é correr contra o vento, ousar nas manobras e lutar por dias melhores e mais intensos.

Até!



Fotos: Claudionor Gomes (@NoGomes) e Wanderson Gomes (@WandssS)