domingo, 30 de setembro de 2012

“... Traços de calor humano, descontração, espontaneidade, cor, alegria, musicalidade...”

Grupo cultural de percussão popular brasileira Batukenjé (2006). Por João Campello.

Uma das tarefas adotadas por este blog é também fornecer a você, querido leitor (a), acesso a publicações que promovam analises do conceito cultura em todas as suas facetas alcançáveis, sejam estas analises de caráter científico ou meramente subjetivo e emocional sobre possíveis identidades nacionais. Percebendo isso, senti a necessidade de expor um pouco de um livro que acabei de ler e que resgata (se é que esteve esquecido e inutilizado) a teoria da existência de uma identidade nacional, de uma brasilidade efervescente que se destaca em comparação com outros espaços para além de nossos limites territoriais. Vamos ver, a partir de agora, alguns apontamentos do livro Cultura Brasileira da Hospitalidade: reflexões sobre o jeito brasileiro de ser e receber, de 2008, que elenquei como aspectos importantes. A metodologia aqui adotada é dissecar, tópico por tópico, a proposta dos autores e questionar suas investidas.


1 – Impressões do tópico Janelas para a cultura brasileira da hospitalidade, de Sérgio Foguel.

Sérgio Foguel. Por Luciana de Francesco.
O livro supracitado, ligado ao turismo, é uma criação e organização do senhor Sérgio Foguel, presidente da Fundação Turismo para a Paz e Desenvolvimento Sustentável e fundador do Instituto da Hospitalidade. Dividido em seis momentos (sendo o último uma seleção de entrevistas de personalidades que participaram dos encontros da fundação), o livro procura apresentar, não apenas na voz de Foguel, mas de outros representantes convidados, características que elucidem a existência de uma cultura da hospitalidade nacional como um dos componentes para o desenvolvimento econômico e turístico no Brasil, agregado ao mosaico da diversidade cultural peculiar a cada Estado. Assim, essa forma de ser e receber do nosso povo construiria, segundo defende Sérgio Foguel, um laço que supera as relações formais e unicamente econômicas, garantindo o retorno do turista ao local visitado. Dessa forma, o autor garante a existência de uma brasilidade como a ideia-força que norteia essa publicação.

Bem sabemos de um autor renomado que teorizava, dentro dos campo das Ciências Sociais, sobre a existência dessa identidade nacional, desse jeitinho brasileiro de viver, seu nome: Roberto DaMatta. Mas aqui, em Cultura Brasileira da Hospitalidade, esse elemento possivelmente característico de nossas terras é utilizado como um importante agregador de valor aos nossos produtos materiais ou imateriais ligados à cultura, diferentes símbolos em diferentes regiões. É justamente por essa preocupação a quantas andam as pernas do comércio turístico e no intuito de organizá-lo para se adaptar ao grau de importância de nossos produtos mais valiosos, foi criado o MBTC (Movimento Brasileiro de Turismo e Cultura), com as seguintes propostas:

Valorizar o jeito brasileiro de ser; promover o resgate de manifestações culturais; preservação da biodiversidade e potencializar os micro e pequenos negócios no setor turístico.

Segundo Foguel, temos o potencial da hospitalidade diferenciada, que cativa o turista e garante seu retorno. No entanto, em muitas comunidades brasileiras, o processo de tecnologização ainda é bastante tardio, o que nos leva a duas questões que afetam diretamente o campo aqui estudado, difíceis de serem administradas dentro do universo da economia cultural: 1) nas produções culturais, como no artesanato, por exemplo, a produção manual/tradicional é fundamental para a manutenção da riqueza simbólica do que se produz. Além disso, aderir a certas tecnologias e produções em grande escala descaracterizaria a comunidade e seus rituais de produção artística por vezes seculares. 2) a principal dificuldade para se manter um negócio voltado a cultura é a sobrevivência do artista produtor, que agrega sua força de trabalho ao produto desenvolvido e o formata cada vez mais caro e em menor número, pois não existem artifícios para sua produção em massa a não ser a contratação provisória (e não permanente, pois a saída do produto não é garantida) de forças de trabalho que dominam a mesma técnica. Portanto, neste primeiro momento, Sérgio Foguel indica que: temos o carisma, falta um planejamento maior de apoio às artes e fortalecimento deste segmento no âmbito educacional para elaboração de espaços de divulgação que aumentem o consumo e, consequentemente, o turismo ao local visitado.



2 – Impressões do tópico Cultura brasileira da hospitalidade, de Márcio Favilla Lucca de Paula, secretário-executivo do Ministério do Turismo, 2003-2006.

Em seu relato nesta segunda etapa do livro, Mário Favilla reafirma algumas das ideias do autor, quando elucida que a principal marca do turismo brasileiro é o diferencial de quem recebe o turista, neste caso, a dona Maria, o seu João, o seu José. Como um dos nossos patrimônios, cita o povo e seu papel de destaque no turismo nacional e internacional. Infelizmente, esse entusiasmo não explica o descaso com muitos centros históricos que comportam grandes linhas simbólicas do desenvolvimento de nosso povo. Maior patrimônio do Brasil é mesmo o brasileiro, mas os agentes formais encarregados de papéis institucionais, como os de dentro da cultura, carecem de maior preparo e de um repasse maior da fatia do bolo para a elaboração de ações que interajam diretamente com as escolas, berço de todo o nosso desenvolvimento. Veja o esquema básico. 



3 – Impressões do tópico Qual o diferencial brasileiro no turismo? De Luiz Carlos Barboza, Diretor Técnico do Sebrae.

Segundo Luiz Carlos, o Sebrae agregou-se a dois grandes projetos para garantir sua realização, são eles: Movimento Brasil de Turismo e Cultura e Fórum Mundial de Turismo para a Paz e Desenvolvimento Sustentável (projetos do IHInstituto de Hospitalidade). Como principal aspecto do chamado turismo de qualidade (que preza pela melhoria da qualidade de vida), Luiz Carlos cita a hospitalidade brasileira, descrevendo detalhadamente alguns aspectos característicos daquele Brasil que ainda mora no interior, com aquele jeito carinhoso de receber, de escancarar as portas da casa pra quem chega pra descansar, de servir banquetes no quintal, enquanto as crianças brincam e correm em volta da mesa, etc. etc.

Mesmo sendo essa imagem proposta por Luiz Carlos fortemente sedutora, não se responde quais as soluções para o problema implícito outrora já descrito por Howard Hughes, em seu livro Artes, Entretenimento e Turismo (2005), quanto ao processo de descaracterização da pequena comunidade. Como fazer, portanto, para consumir grandemente da peculiaridade hospitaleira de um povo, sua gastronomia, suas danças típicas, suas produções materiais de artesanato, suas belezas naturais, sem afetá-las diretamente pelo excesso da busca, da visibilidade em massa e do consumo que não preserva?

Um Brasil para todos os gostos. Imagem extraída de Arca do Conhecimento  (arcadoconhecimento.blogspot.com).


4 – Impressões do tópico O possível circulo virtuoso, de Sérgio Foguel.

No Brasil, o tempo livre disponível das pessoas aumentou, entretanto, a produtividade desse tempo é que deve ser melhor trabalhada. Devem ser direcionados a formação profissional, ao consumo de entretenimentos turísticos e outros consumos ligados a diversão. Neste tópico, Sérgio Foguel, percebendo o tempo livre, inicia uma fala voltada a criação de bases para aperfeiçoamento profissional e propícias ao lazer. No entanto, essa proposta apenas se tornará em realidade com a integração dos Estados e sincronia de desenvolvimento deste segmento, o que ainda é tabu no Brasil.

5 – Impressões do tópico Movimento Brasil de turismo e cultura, caminhando para o desenvolvimento sustentável, por Sérgio Foguel.

A MBTC tem por prioridade, segundo Foguel, promover ações que valorizem as peculiaridades nacionais, como o jeito tipicamente brasileiro de ser e receber e tem como ação-chave desenvolver o mercado nacional para que esse tenha visibilidade mundial e seja sinônimo de organização.

Entretanto, observe para o seguinte trecho extraído da página 29:

A cordialidade, o modo informal de ser, a alegria e outros aspectos que marcam os brasileiros se integram a uma diversidade de riqueza cultural.

Mas, esse aspecto não seria o principal entrave para o desenvolvimento de empreendimentos no país inteiro? Esse livro me chamou atenção não por ser uma obra inquestionável e solucionadora dos problemas que aqueles que vivem do turismo cultual enfrentam, mas, por seus erros e acertos, é um dos pontapés para o debate. O autor por vezes confunde os dados que colheu com seus sentimentos particulares e sua vontade de estruturar o turismo, confundindo-se, portanto, com as mesma dúvidas que nos afligem como, por exemplo, a da intervenção tecnológica no trabalho da cultura material, como já foi visto aqui anteriormente.

Espetáculo Boi do Canteirão. Imagem extraída de Divirta-CE
(divirta-ce.blogspot.com).
Como fazer uma comunidade sobreviver de sua riqueza histórica? Como promover ainda mais o maracatu, a marujada, chula, boi-bumbá, xiré, toré, festa do divino e por aí vai, e ainda preservar suas raízes? Como preparar a comunidade para receber o turista e organizar seus atrativos sem se prostrar a uma lógica de consumo que descaracterize e sentido real de sua produção? Foguel afirma na etapa final do livro que a própria população pode se organizar autonomamente, cita o termo agentes de mudança para indicar o faça você mesmo. Mas, até o entusiasmado Foguel reconhece que sem orientação e sentimento de pertencimento não deve haver êxito e, quanto a esse aspecto, o agente maior do município (prefeito) deve orientar aqueles que são ligados aos estudos e trabalhos da cultura. Infelizmente, não é em todos os casos que o prefeito está por dentro e ativo. Ainda quanto à figura institucional municipal maior, Sérgio Foguel adere no livro a ideia do rede em rede e conta com os municípios e Estados para sua realização. 

Importante: O pressuposto de rede liga-se a integração, a sincronia, a cooperação, a participação, harmonia e organização de ideias. Se estamos preparados para promover tal mutirão de apoio à cultura a nível nacional, não sei. Mas acredito que em micro-localizações esse fenômeno organizacional já ocorre. Como exemplo, podemos citar os atuais coletivos de apoio à cultura alternativa alagoana que surgiram em Maceió e Arapiraca e despertaram o interesse e necessidade em se promover espaços da mesma lógica em outras áreas urbanas, como mais recentemente fez União dos Palmares, com o Coletivo A Fábrica. Esses indivíduos que se unem e formam coletivos organizados são os agentes de mudança citados pelo autor. Mas, muitos projetos estão se perdendo por conta da falta de apoio institucional e do excesso na burocracia que normatiza a ideia e a financia. Esses problemas não foram citados em Cultura Brasileira da Hospitalidade: reflexões sobre o jeito brasileiro de ser e receber, mas não podemos descartá-los. Abaixo, um trecho extraído da página 30 deste livro, explicando, nas palavras do autor, a ideia de rede em rede.

Em paralelo, se promovem iniciativas elaboradas no âmbito das temporadas, como feiras e exposições, eventos técnicos e de mobilização e agenda de artes e manifestações culturais, entre outros exemplos. 


Obrigado a todos que se disponibilizaram a essa longa leitura e até a próxima!