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| Grupo cultural de percussão popular brasileira Batukenjé (2006). Por João Campello. |
Uma das tarefas adotadas por este
blog é também fornecer a você, querido leitor (a), acesso a publicações que
promovam analises do conceito cultura
em todas as suas facetas alcançáveis, sejam estas analises de caráter
científico ou meramente subjetivo e emocional sobre possíveis identidades nacionais. Percebendo isso, senti a necessidade de
expor um pouco de um livro que acabei de ler e que resgata (se é que esteve
esquecido e inutilizado) a teoria da existência de uma identidade nacional, de uma brasilidade
efervescente que se destaca em comparação com outros espaços para além de
nossos limites territoriais. Vamos ver, a partir de agora, alguns apontamentos
do livro Cultura Brasileira da Hospitalidade: reflexões sobre o jeito brasileiro
de ser e receber, de 2008,
que elenquei como aspectos importantes. A metodologia aqui adotada é dissecar,
tópico por tópico, a proposta dos autores e questionar suas investidas.
1 – Impressões
do tópico Janelas para a cultura
brasileira da hospitalidade, de Sérgio Foguel.
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| Sérgio Foguel. Por Luciana de Francesco. |
O livro supracitado, ligado ao
turismo, é uma criação e organização do senhor Sérgio Foguel, presidente da Fundação
Turismo para a Paz e Desenvolvimento Sustentável e fundador do Instituto da Hospitalidade. Dividido em
seis momentos (sendo o último uma seleção de entrevistas de personalidades que participaram dos encontros da fundação), o livro procura apresentar, não apenas na voz de Foguel, mas de outros representantes
convidados, características que elucidem a existência de uma cultura da hospitalidade nacional como
um dos componentes para o desenvolvimento econômico e turístico no Brasil,
agregado ao mosaico da diversidade cultural peculiar a cada Estado. Assim, essa
forma de ser e receber do nosso povo construiria, segundo defende Sérgio Foguel, um laço que supera as
relações formais e unicamente econômicas, garantindo o retorno do turista ao
local visitado. Dessa forma, o autor garante a existência de uma brasilidade como a ideia-força que
norteia essa publicação.
Bem sabemos de um autor renomado que
teorizava, dentro dos campo das Ciências Sociais, sobre a existência dessa identidade nacional, desse jeitinho brasileiro de viver,
seu nome: Roberto DaMatta. Mas aqui,
em Cultura Brasileira da Hospitalidade,
esse elemento possivelmente característico de nossas terras é utilizado como um
importante agregador de valor aos nossos produtos
materiais ou imateriais ligados à cultura, diferentes símbolos em diferentes
regiões. É justamente por essa preocupação a quantas andam as pernas do
comércio turístico e no intuito de organizá-lo para se adaptar ao grau de
importância de nossos produtos mais
valiosos, foi criado o MBTC (Movimento Brasileiro de Turismo e Cultura),
com as seguintes propostas:
Valorizar o jeito brasileiro de ser; promover o resgate de manifestações culturais; preservação da biodiversidade e potencializar os micro e pequenos negócios no setor turístico.
Segundo Foguel, temos o potencial da hospitalidade diferenciada, que cativa
o turista e garante seu retorno. No entanto, em muitas comunidades brasileiras,
o processo de tecnologização ainda é bastante tardio, o que nos leva a duas
questões que afetam diretamente o campo aqui estudado, difíceis de serem administradas dentro
do universo da economia cultural: 1)
nas produções culturais, como no artesanato, por exemplo, a produção
manual/tradicional é fundamental para a manutenção da riqueza simbólica do que
se produz. Além disso, aderir a certas tecnologias e produções em grande escala
descaracterizaria a comunidade e seus rituais de produção artística por vezes
seculares. 2) a principal
dificuldade para se manter um negócio voltado a cultura é a
sobrevivência do artista produtor, que agrega sua força de trabalho ao produto
desenvolvido e o formata cada vez mais caro e em menor número, pois
não existem artifícios para sua produção em massa a não ser a contratação
provisória (e não permanente, pois a saída do produto não é garantida) de forças
de trabalho que dominam a mesma técnica. Portanto, neste primeiro momento, Sérgio Foguel indica que: temos o
carisma, falta um planejamento maior de apoio às artes e fortalecimento deste segmento no âmbito educacional para
elaboração de espaços de divulgação que aumentem o consumo e,
consequentemente, o turismo ao local visitado.
2 – Impressões
do tópico Cultura brasileira da
hospitalidade, de Márcio Favilla Lucca de Paula, secretário-executivo do
Ministério do Turismo, 2003-2006.
Em seu relato nesta segunda etapa do
livro, Mário Favilla reafirma
algumas das ideias do autor, quando elucida que a principal marca do turismo
brasileiro é o diferencial de quem recebe o turista, neste caso, a dona Maria, o seu João, o seu José.
Como um dos nossos patrimônios, cita o povo e seu papel de destaque no turismo
nacional e internacional. Infelizmente, esse entusiasmo não explica o descaso
com muitos centros históricos que comportam grandes linhas simbólicas do
desenvolvimento de nosso povo. Maior patrimônio do Brasil é mesmo o brasileiro,
mas os agentes formais encarregados de papéis institucionais, como os de dentro da cultura, carecem de maior preparo e de um repasse maior da fatia do bolo para a elaboração de ações que interajam
diretamente com as escolas, berço de todo o nosso desenvolvimento. Veja o esquema básico.
3 – Impressões
do tópico Qual o diferencial brasileiro
no turismo? De Luiz Carlos Barboza, Diretor Técnico do Sebrae.
Segundo Luiz Carlos, o Sebrae
agregou-se a dois grandes projetos para garantir sua realização, são eles: Movimento Brasil de Turismo e Cultura e
Fórum Mundial de Turismo para a Paz e
Desenvolvimento Sustentável (projetos do IH – Instituto de
Hospitalidade). Como principal aspecto do chamado turismo de qualidade (que preza pela melhoria da qualidade de
vida), Luiz Carlos cita a
hospitalidade brasileira, descrevendo detalhadamente alguns aspectos
característicos daquele Brasil que ainda mora no interior, com aquele jeito
carinhoso de receber, de escancarar as portas da casa pra quem chega pra
descansar, de servir banquetes no quintal, enquanto as crianças brincam e
correm em volta da mesa, etc. etc.
Mesmo sendo essa imagem proposta por Luiz Carlos fortemente sedutora, não se
responde quais as soluções para o problema implícito outrora já descrito por Howard Hughes, em seu livro Artes,
Entretenimento e Turismo (2005),
quanto ao processo de descaracterização da pequena comunidade. Como fazer, portanto, para
consumir grandemente da peculiaridade hospitaleira de um povo, sua gastronomia,
suas danças típicas, suas produções materiais de artesanato, suas belezas
naturais, sem afetá-las diretamente pelo excesso da busca, da visibilidade em
massa e do consumo que não preserva?
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| Um Brasil para todos os gostos. Imagem extraída de Arca do Conhecimento (arcadoconhecimento.blogspot.com). |
4 – Impressões
do tópico O possível circulo virtuoso,
de Sérgio Foguel.
No Brasil, o tempo livre disponível
das pessoas aumentou, entretanto, a produtividade desse tempo é que deve ser
melhor trabalhada. Devem ser direcionados a formação profissional, ao consumo
de entretenimentos turísticos e outros consumos ligados a diversão. Neste
tópico, Sérgio Foguel, percebendo o
tempo livre, inicia uma fala voltada a criação de bases para aperfeiçoamento
profissional e propícias ao lazer. No entanto, essa proposta apenas se tornará
em realidade com a integração dos Estados e sincronia de desenvolvimento deste
segmento, o que ainda é tabu no Brasil.
5 –
Impressões do tópico Movimento Brasil de
turismo e cultura, caminhando para o desenvolvimento sustentável, por
Sérgio Foguel.
A MBTC tem por prioridade, segundo Foguel, promover ações que valorizem as
peculiaridades nacionais, como o jeito tipicamente brasileiro de ser e receber
e tem como ação-chave desenvolver o mercado nacional para que esse tenha
visibilidade mundial e seja sinônimo de organização.
Entretanto, observe
para o seguinte trecho extraído da página 29:
A cordialidade, o modo informal
de ser, a alegria e outros aspectos que marcam os brasileiros se integram a uma
diversidade de riqueza cultural.
Mas, esse aspecto não
seria o principal entrave para o desenvolvimento de empreendimentos no país
inteiro? Esse livro me chamou atenção não por ser uma obra inquestionável e
solucionadora dos problemas que aqueles que vivem do turismo cultual enfrentam,
mas, por seus erros e acertos, é um dos pontapés para o debate. O autor por
vezes confunde os dados que colheu com seus sentimentos particulares e sua vontade
de estruturar o turismo, confundindo-se, portanto, com as mesma dúvidas que
nos afligem como, por exemplo, a da intervenção tecnológica no trabalho da
cultura material, como já foi visto aqui anteriormente.
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| Espetáculo Boi do Canteirão. Imagem extraída de Divirta-CE (divirta-ce.blogspot.com). |
Como fazer uma
comunidade sobreviver de sua riqueza histórica? Como promover ainda mais o
maracatu, a marujada, chula, boi-bumbá, xiré, toré, festa do divino e por aí
vai, e ainda preservar suas raízes? Como preparar a comunidade para receber o
turista e organizar seus atrativos sem se prostrar a uma lógica de consumo que
descaracterize e sentido real de sua produção? Foguel afirma na etapa final do livro que a própria população pode
se organizar autonomamente, cita o termo agentes
de mudança para indicar o faça você
mesmo. Mas, até o entusiasmado Foguel
reconhece que sem orientação e sentimento de pertencimento não deve haver êxito
e, quanto a esse aspecto, o agente maior do município (prefeito) deve orientar
aqueles que são ligados aos estudos e trabalhos da cultura. Infelizmente, não é
em todos os casos que o prefeito está por dentro e ativo. Ainda quanto à figura
institucional municipal maior, Sérgio
Foguel adere no livro a ideia do rede em rede
e conta com os municípios e Estados para sua realização.
Importante: O pressuposto de rede liga-se a integração, a sincronia, a cooperação, a participação, harmonia e organização de ideias. Se estamos preparados para promover tal mutirão de apoio à cultura a nível nacional, não sei. Mas acredito que em micro-localizações esse fenômeno organizacional já ocorre. Como exemplo, podemos citar os atuais coletivos de apoio à cultura alternativa alagoana que surgiram em Maceió e Arapiraca e despertaram o interesse e necessidade em se promover espaços da mesma lógica em outras áreas urbanas, como mais recentemente fez União dos Palmares, com o Coletivo A Fábrica. Esses indivíduos que se unem e formam coletivos organizados são os agentes de mudança citados pelo autor. Mas, muitos projetos estão se perdendo por conta da falta de apoio institucional e do excesso na burocracia que normatiza a ideia e a financia. Esses problemas não foram citados em Cultura Brasileira da Hospitalidade: reflexões sobre o jeito brasileiro de ser e receber, mas não podemos descartá-los. Abaixo, um trecho extraído da página 30 deste livro, explicando, nas palavras do autor, a ideia de rede em rede.
Importante: O pressuposto de rede liga-se a integração, a sincronia, a cooperação, a participação, harmonia e organização de ideias. Se estamos preparados para promover tal mutirão de apoio à cultura a nível nacional, não sei. Mas acredito que em micro-localizações esse fenômeno organizacional já ocorre. Como exemplo, podemos citar os atuais coletivos de apoio à cultura alternativa alagoana que surgiram em Maceió e Arapiraca e despertaram o interesse e necessidade em se promover espaços da mesma lógica em outras áreas urbanas, como mais recentemente fez União dos Palmares, com o Coletivo A Fábrica. Esses indivíduos que se unem e formam coletivos organizados são os agentes de mudança citados pelo autor. Mas, muitos projetos estão se perdendo por conta da falta de apoio institucional e do excesso na burocracia que normatiza a ideia e a financia. Esses problemas não foram citados em Cultura Brasileira da Hospitalidade: reflexões sobre o jeito brasileiro de ser e receber, mas não podemos descartá-los. Abaixo, um trecho extraído da página 30 deste livro, explicando, nas palavras do autor, a ideia de rede em rede.
Obrigado a todos que se
disponibilizaram a essa longa leitura e até a próxima!





