sexta-feira, 24 de maio de 2013

Emancipação política: elementos do espetáculo

Imagem extraída do blog da Prefeitura Municipal de Rio Largo - Desfile da banda fanfarra de Murici.


Já se passaram dias desde as comemorações das emancipações políticas de interiores como Murici e Branquinha (tidos aqui como exemplos centrais), mas provavelmente não percebemos as ligações ritualísticas desse processo de forma mais efetiva. E isso tem importância? Claro que sim! Perceber essas festividades diz muito sobre a nossa história, não apenas do ponto de vista político, mas de todos os elementos que compõem a formação cultural/humana desses povos. E foi a partir de estudos do carnaval alagoano que consegui remontar alguns dos aspectos essenciais para que pudéssemos compreender como se dão esses momentos, através de uma literatura escassa e com grande contribuição da oralidade popular. Esse texto, escrito exclusivamente para o blog Cultura ao Lado, tem a intenção de desmontar o rito, para compreender o mito. É apenas um esboço do estudo das festividades e do campo dos mercados de lazer. É apenas um estudo de elementos, e não propriamente de sentidos. Mas deve servir para o propósito de pensarmos esses pólos de maneira analítica e sem restrições. Aqui, o texto é resumido, mas pode forjar um objeto a ser apreendido pelo estudioso que se interessar.


Segundo informações de Jimmy Xerri, em sua obra Dois Séculos de História (2001), a última etapa de desmembramento da cidade de Murici se deu em 1962 e originou cidades como Branquinha e Messias. Pela proximidade territorial dessas cidades, percebemos ao longo do tempo também uma proximidade histórica sobre os acontecimentos que desenvolveram suas respectivas emancipações. E vamos por elementos:


A banda fanfarra.

Imagem extraída do Portal Melhor Notícia.


É tradição que nos desfiles de comemoração da emancipação política a banda fanfarra o acompanhe, encabeçando o sentido da festa e reforçando o orgulho local, inclusive amparada por outras bandas coadjuvantes que servem de estandartes para outros municípios, fazendo participações especiais. Atualmente, os grupos musicais desfilam com as cores de seus municípios (expostas na bandeira) e com os estandartes que representam os poderes locais. Mas nem sempre foi assim. Jimmy Xerri nos relata ainda que em 1921 a cidade de Murici sofreu importantes transformações que afetaram de maneira decisiva seus aspectos de sociabilidade. Enfim, uma cidade com altos índices de analfabetismo ganhava uma sobrevida numa Alagoas tão castigada por forme e doenças.  Em 28 de junho daquele ano, foram inauguradas a energia elétrica no município e também uma ponte que atravessava o rio Mundaú e facilitava o trânsito de mercadorias, o que possivelmente veio a preencher as lacunas de um mercado quase que inexistente. Foi nessa dia que a banda fanfarra estreou num desfile popular meio improvisado, encantando a todos com musicalidade, disciplina e brilho de fantasias.

Imagem extraída do Portal Murici Online.


Na cidade de Branquinha, um acontecimento parecido. Também em comemoração a uma ponte recém construída, a banda fanfarra saiu em desfile aberto para celebrar o acontecimento. Percebem aí as ligações históricas? Não poderia ser diferente. Com o imponente Mundaú, é claro que uma das grandes preocupações do governo do Estado seria criar formas de transição populacional por esses territórios, o que facilitaria na criação de mercados e abertura desses municípios a outros limites territoriais.


Desfiles escolares.

Imagem extraída do Portal Murici Web.


Herança da disciplina militar em desfilar, os estudantes são condicionados a se apresentarem publicamente para encenar, tanto a história que passou quanto a história que se quer construir. Por isso aqueles cartazes que tratam dos principais objetivos de uma sociedade... Meio ambiente, saúde, educação, segurança, moradia, conscientização política, dentre outros temas. A prática virou costume em interiores de Alagoas, especialmente por representar uma luta da educação frente a todo o descaso histórico. Lembrem-se que foi essa mesma Alagoas um dos Estados de maior índice de analfabetismo do país por longos anos (e parece que as coisas não mudaram muito), sobretudo na década de 30 e 40. A cidade de Murici, em 1931, atingiu o espantoso número de 80% de analfabetos, um número tão grande quanto o aumento populacional desse município na época, que chegava a mais de 40 mil pessoas, como nos informa Xerri a partir de suas pesquisas.

Imagem extraída do Portal Murici Web.



As inaugurações.

Imagem extraída do Portal Correio dos Municípios.


Não é apenas pelo fato de ser uma comemoração de emancipação política, mas todo tipo de festa aberta é também um espaço político em potencial e usado enquanto tal, principalmente por aqueles que desempenham cargos políticos formais nesses interiores. Inaugurar é renovar. É alimentar a ideia de desenvolvimento, tecnologização, de dias melhores. Não quero entrar nas polêmicas que conferem a utilização ou não desses elementos inaugurados ou destino dos recursos disponibilizados. Quero apenas relatar o ato e as conexões históricas entre esses dois municípios aqui escolhidos como carros-chefe para esse tipo de análise. Prova essa conexão, ao longo do tempo (pela inauguração da luz elétrica e de suas pontes), que as tecnologias são um alento, são condicionantes de uma perspectiva futurística de bem estar, de sossego, de prolongamento da vida.

Quem é do interior sabe que cada estabelecimento comercial, cada posto de atendimento voltado para a saúde e bem estar, é amplamente noticiado e até “benzido” pela igreja como forma de constatação da novidade e fortalecimento do futuro. Tudo isso embutido dentro de uma lógica de sobrevivência do interior, sem a dependência acentuada da capital. Tudo isso faz parte de uma necessidade de perceber que um lugarzinho no “fim do mundo” também pode prover resoluções e atender as demandas da sua população geralmente desacostumada com grandes novidades.


A população.

Imagem extraída do blog da Prefeitura Municipal de Rio Largo - Desfile da banda fanfarra de Murici.


Como num grande espetáculo, os desfiles de emancipação cativam. São grandes atrativos para uma população geralmente insatisfeita com algum aspecto cultural, político ou social de suas vidas cotidianas. São um reforço, um rito de passagem que infla poder no mito da esperança por condições melhores de vida. Assim como as principais festas que professam anualmente o nacionalismo verde e amarelo, são sensibilizantes. Colocadas as margens da rua (palco do espetáculo), os populares podem ver seus entes queridos ou pessoas próximas representarem as cores de um município em que viveram desde sempre. Os jovens? Esses desfilam por suas escolas, ao lado de seus amigos, de peito aberto e rostos direcionados para os céus, na configuração de um orgulho de ser e num sonho de querer ser mais.


Conclusão.

Para descrever todos os elementos e implantar categorias analíticas, é preciso se doar um pouco mais para o estudo dessas manifestações populares que conferem a comemoração de uma data histórica. E nem de longe fiz isso. O que devo ter feito é jogar uma semente para que desestruturemos essas estruturas e percebamos o quão encantadoras são para as populações que as consomem e quão reveladoras são para a compreensão de como se sucederam.