quarta-feira, 30 de maio de 2012

Negro Bom! Negro Arte! Negro é Marte?


Proponho uma reflexão: O opressor levava consigo um gigantesco baú. Resolveu ir até a praia, seguindo seus instintos perversos e sua falsa noção de civilidade, botou os pés na areia e derramou todo o conteúdo do baú nas águas azuis. Deitado na praia está você, está ele, ela, eu... O conteúdo era nada menos que a história do negro que, mesmo com o avanço do acesso a informação, jamais é sabida de maneira completa e satisfatória. Deitados na praia, esperamos que a força das ondas nos traga alguma resposta, alguma verdadeira informação que seja que nos permita seguir em frente, com a plena noção de quem exatamente ergueu um futuro, com o suor no rosto, as mãos cheias de sangue e uma dor que doía na alma. Pouquíssimos são os curiosos que possuem coragem de desbravar esses grandes mares reveladores. Infelizmente,
pouquíssimos. Outrora aprisionada num baú, a história negra foi surrupiada de seus próprios donos, que são os negros, que somos nós. Com o fim da escravidão formal, elas foram arremessadas em mares jamais desafiados e navegam sem rumo por lugares desconhecidos e que talvez jamais sejam conhecidos, pois ainda é duro enfrentar as linhas limítrofes da repressão, que ganham forma nos mais variados moldes.

Atualmente, nossas crianças se desenvolvem com o ensino dos povos africanos garantidos no cronograma de aprendizado. A culpa tomou a forma de um martelo e desferiu golpes na cabeça de muitos dos nossos líderes nacionais, que perderam o sono buscando formas de se redimir da herança sombria que marginalizou o povo que nos deu forma, sabor e conteúdo. Na minha cidade, nas gincanas escolares, se fez obrigatória a abordagem dos temas africanos. Ali do lado tem cota... Ali do outro também. De grão em grão vamos buscando nos desfazer da imagem de repressores. Hoje, a cultura negra é boa, brilhante, destacável de todas as outras. É isso que dizem nos meios acadêmicos formais, é isso que dizem nas esquinas do senso comum. O negro exala o belo, a arte performática nos campos de futebol, nos palcos da dança e nos terreiros eles simplesmente são os mestres da exuberância corpórea e simbólica. Mas, negro é Marte? Faço essa pergunta a você, caro leitor. Pois, assim como Marte, ainda desconhecido, estranho aos olhos, longínquo e que protege muitos segredos, o negro não seria um monumento nacional e um patrimônio que encaramos como exterior a nós mesmos e apartados de nossa história? Marte é um planeta curioso, diferente, possui beleza exótica, etc. Se colocarmos agora o negro enquanto um conceito parelho ao de Marte, não há certa semelhança?

A comparação acima não é permanente em si, mas uma condição que se permanece junto a brechas sociais de produção e reprodução de informação entre as gerações. Volto aqui na ilusória cena que propus anteriormente: muitas verdades foram arremessadas ao mar e poucos são os que têm coragem de enfrentar essas águas e suas armadilhas, portanto, o que sabereis é fruto do que trazem a ti. Aguardai as ondas.
O historiador, romancista e ativista do movimento negro, senhor Joel Rufino dos Santos, em seu artigo *Culturas Negras, Civilização Brasileira, refletiu sobre algumas contribuições do negro ou afrodescendente para a nação brasileira. Usando Freire como pano de fundo de seus apontamentos, Joel destaca o amaciamento da língua portuguesa pela flexibilidade africana. O processo começava com as amas que tomavam conta das crianças brancas filhas dos patrões e lhes ensinavam atalhos macios de como identificar as coisas, extraindo a linguagem do campo formal e elevando-a a um berço de intimidade e carinho: neném, cacá, pipi, bumbum, mimi, etc.

As solenidades dos nomes perderem esse sentindo: o Francisco virou Chico ou Chiquinho e o Alberto viu Bebeto ou Betinho, entre muitos outros. O mesmo procedimento de adequação da linguagem ocorreu, por exemplo, em maior ou menor proporção nos Estados Unidos, Inglaterra e França.

O mesmo negro que ensinou a falar, foi deslinguado. Teve, com a opressão e manipulação de suas expressões, que aderir às línguas dos colonizadores. Os milhares de quebras de xangô foram distanciando-o de suas (das nossas) próprias tradições. O negro jogou muita bola, mas para entrar em campo pela primeira vez, se disfarçou de branco, banhando-se em pó de arroz.

Que tal desbravar uma luta a partir de hoje com o objetivo de conhecer as verdades que ainda boiam no mar e que fazem parte de nossa história, bem como um braço faz parte do nosso corpo?
Negro é Marte? Não deveria ser. Pois negro sou eu. Negro é você!

*O artigo Culturas Negras, Civilização Brasileira de Joel Rufino dos Santos foi publicado na Revista Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1997, no Rio de Janeiro.

Foto: Angèle Etoundi Essamba