Proponho uma
reflexão: O opressor levava consigo um gigantesco baú. Resolveu ir até a praia,
seguindo seus instintos perversos e sua falsa noção de civilidade, botou os pés
na areia e derramou todo o conteúdo do baú nas águas azuis. Deitado na praia
está você, está ele, ela, eu... O conteúdo era nada menos que a história do
negro que, mesmo com o avanço do acesso a informação, jamais é sabida de
maneira completa e satisfatória. Deitados na praia, esperamos que a força das
ondas nos traga alguma resposta, alguma verdadeira informação que seja que nos
permita seguir em frente, com a plena noção de quem exatamente ergueu um
futuro, com o suor no rosto, as mãos cheias de sangue e uma dor que doía na
alma. Pouquíssimos são os curiosos que possuem coragem de desbravar esses
grandes mares reveladores. Infelizmente,
pouquíssimos. Outrora aprisionada num baú, a história negra foi surrupiada de seus próprios donos, que são os negros, que somos nós. Com o fim da escravidão formal, elas foram arremessadas em mares jamais desafiados e navegam sem rumo por lugares desconhecidos e que talvez jamais sejam conhecidos, pois ainda é duro enfrentar as linhas limítrofes da repressão, que ganham forma nos mais variados moldes.
pouquíssimos. Outrora aprisionada num baú, a história negra foi surrupiada de seus próprios donos, que são os negros, que somos nós. Com o fim da escravidão formal, elas foram arremessadas em mares jamais desafiados e navegam sem rumo por lugares desconhecidos e que talvez jamais sejam conhecidos, pois ainda é duro enfrentar as linhas limítrofes da repressão, que ganham forma nos mais variados moldes.
Atualmente,
nossas crianças se desenvolvem com o ensino dos povos africanos garantidos no
cronograma de aprendizado. A culpa tomou a forma de um martelo e desferiu
golpes na cabeça de muitos dos nossos líderes nacionais, que perderam o sono
buscando formas de se redimir da herança sombria que marginalizou o povo que
nos deu forma, sabor e conteúdo. Na minha cidade, nas gincanas escolares, se
fez obrigatória a abordagem dos temas africanos. Ali do lado tem cota... Ali do
outro também. De grão em grão vamos buscando nos desfazer da imagem de
repressores. Hoje, a cultura negra é boa,
brilhante, destacável de todas as outras. É isso que dizem nos meios acadêmicos
formais, é isso que dizem nas esquinas do senso comum. O negro exala o belo, a
arte performática nos campos de futebol, nos palcos da dança e nos terreiros
eles simplesmente são os mestres da exuberância corpórea e simbólica. Mas,
negro é Marte? Faço essa pergunta a você, caro leitor. Pois, assim como Marte, ainda
desconhecido, estranho aos olhos,
longínquo e que protege muitos segredos, o negro não seria um monumento
nacional e um patrimônio que encaramos como exterior a nós mesmos e apartados
de nossa história? Marte é um planeta curioso, diferente, possui beleza exótica, etc. Se colocarmos agora o negro
enquanto um conceito parelho ao de Marte, não há certa semelhança?
A comparação
acima não é permanente em si, mas uma condição que se permanece junto a brechas
sociais de produção e reprodução de informação entre as gerações. Volto aqui na
ilusória cena que propus anteriormente: muitas verdades foram arremessadas ao
mar e poucos são os que têm coragem de enfrentar essas águas e suas armadilhas,
portanto, o que sabereis é fruto do que trazem a ti. Aguardai as ondas.
O historiador,
romancista e ativista do movimento negro, senhor Joel Rufino dos Santos, em seu
artigo *Culturas Negras, Civilização Brasileira, refletiu sobre algumas
contribuições do negro ou afrodescendente para a nação brasileira. Usando Freire
como pano de fundo de seus apontamentos, Joel destaca o amaciamento da língua
portuguesa pela flexibilidade africana. O processo começava com as amas que
tomavam conta das crianças brancas filhas dos patrões e lhes ensinavam atalhos
macios de como identificar as coisas, extraindo a linguagem do campo formal e
elevando-a a um berço de intimidade e carinho: neném, cacá, pipi, bumbum, mimi, etc.
As solenidades
dos nomes perderem esse sentindo: o Francisco virou Chico ou Chiquinho e o Alberto
viu Bebeto ou Betinho, entre muitos outros. O mesmo procedimento de adequação da
linguagem ocorreu, por exemplo, em maior ou menor proporção nos Estados Unidos,
Inglaterra e França.
O mesmo negro que
ensinou a falar, foi deslinguado. Teve, com a opressão e manipulação de suas
expressões, que aderir às línguas dos colonizadores. Os milhares de quebras de xangô foram distanciando-o de
suas (das nossas) próprias tradições. O negro jogou muita bola, mas para entrar
em campo pela primeira vez, se disfarçou de branco, banhando-se em pó de arroz.
Que tal desbravar
uma luta a partir de hoje com o objetivo de conhecer as verdades que ainda
boiam no mar e que fazem parte de nossa história, bem como um braço faz parte
do nosso corpo?
Negro é Marte?
Não deveria ser. Pois negro sou eu. Negro é você!
*O
artigo Culturas Negras, Civilização Brasileira de Joel Rufino dos
Santos foi publicado na Revista Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em
1997, no Rio de Janeiro.
Foto: Angèle Etoundi Essamba
