segunda-feira, 28 de maio de 2012

Flâneur


CAPÍTULO 1

Entendendo Algumas das Históricas Dicotomias no Campo dos Estudos da Cultura Popular.

Cultura de elite, cultura popular, tradição, progresso, sociedade folclórica, sociedade tecnológica... São apenas alguns dos conceitos antagônicos que se fizeram presentes no longo e ainda ativo debate sobre as culturas dos povos, sobre a discussão do “o que e quem somos?”. 


Curiosamente, a cultura popular passou a ser intensamente trabalhada após a sua marginalização, no final do século XVIII e início do século XIX, por intelectuais românticos chamados folcloristas. Esses intelectuais foram comovidos pelo estranho e bizarro que se opunha ao anseio do desenvolvimento tecnológico e social da época. A alma popular e ingenuidade ainda “pura” e “intocável” da cultura das classes subalternas chamaram a atenção dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, intelectuais que deram início aos estudos centrais dos grupos de folcloristas, e que influenciaram significativamente o surgimento de grupos desse segmento no Brasil.

Entretanto, segundo aponta Howard Hughes, em seu livro Artes, Entretenimento e Turismo, sempre foi perfeitamente comum, a partir do século XVIII, o interesse pelo “diferente”, pelo “incomum” e, assim, a civilização se enchia de curiosidade pela fragmentada, mas ainda presente cultura do “selvagem”. O gosto pelo estranho se ampliou de tal forma que os líderes dos Estados passaram a investir pesado na manutenção das comunidades tidas como “arcaicas”, tombando construções de grande significado simbólico, aprimorando e repassando às posteriores gerações vestimentas típicas e outros utensílios mais. Não é por acaso que algumas iguarias possuem tanto valor comercial, como achados históricos de culturas tidas como “não civilizadas”.  

Mas, o ponto que quero destacar é ainda mais profundo: causar a manutenção de culturas e grupos populares enquanto suas atividades manuais e modo de vida não baseado no desenvolvimento tecnológico não seria privá-los de uma vida de qualidade? Por outro lado: causar a modernização técnica desses grupos e suas formas de produção cultural não seria ameaçar a continuidade tradicional de sua marca simbólica? Assim, estou elegendo uma questão conclusiva para esta etapa de discussão: é possível conciliar a tradição com a transformação e modernização? 

A autora Vivian Catenacci, em seu artigo Cultura Popular: Entre a Tradição e a Transformação, nos ajuda a compreender a relação entre esses campos aparentemente opostos. É o que trabalharemos no capítulo 1.2 desta empreitada, intitulado A Oposição Histórica da Cultura Popular e Cultura de Elite.

Meus sinceros agradecimentos aos que dedicaram seu tempo a esta leitura de estreia. Espero que este espaço seja frutífero de debate e que elucide algumas questões sobre o tema proposto.


*Flâneur: Vivian Catenacci relembra a utilização deste conceito usado por Baudelaire, que significa o homem das multidões.