CAPÍTULO
1
Entendendo
Algumas das Históricas Dicotomias no Campo dos Estudos da Cultura Popular.
Cultura de elite,
cultura popular, tradição, progresso, sociedade folclórica, sociedade
tecnológica... São apenas alguns dos conceitos antagônicos que se fizeram
presentes no longo e ainda ativo debate sobre as culturas dos povos, sobre a
discussão do “o que e quem somos?”.
Curiosamente, a
cultura popular passou a ser intensamente trabalhada após a sua marginalização,
no final do século XVIII e início do século XIX, por intelectuais românticos
chamados folcloristas. Esses intelectuais foram comovidos pelo estranho
e bizarro que se opunha ao anseio do desenvolvimento tecnológico e social da
época. A alma popular e ingenuidade ainda “pura” e “intocável” da cultura das
classes subalternas chamaram a atenção dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm,
intelectuais que deram início aos estudos centrais dos grupos de folcloristas,
e que influenciaram significativamente o surgimento de grupos desse segmento no
Brasil.
Entretanto,
segundo aponta Howard Hughes, em seu livro Artes, Entretenimento e Turismo,
sempre foi perfeitamente comum, a partir do século XVIII, o interesse pelo
“diferente”, pelo “incomum” e, assim, a civilização se enchia de curiosidade
pela fragmentada, mas ainda presente cultura do “selvagem”. O gosto pelo
estranho se ampliou de tal forma que os líderes dos Estados passaram a investir
pesado na manutenção das comunidades tidas como “arcaicas”, tombando
construções de grande significado simbólico, aprimorando e
repassando às posteriores gerações vestimentas típicas e outros utensílios
mais. Não é por acaso que algumas iguarias possuem tanto valor comercial, como
achados históricos de culturas tidas como “não civilizadas”.
Mas, o ponto que
quero destacar é ainda mais profundo: causar a manutenção de culturas e grupos
populares enquanto suas atividades manuais e modo de vida não baseado no
desenvolvimento tecnológico não seria privá-los de uma vida de qualidade? Por
outro lado: causar a modernização técnica desses grupos e suas formas de produção
cultural não seria ameaçar a continuidade tradicional de sua marca simbólica?
Assim, estou elegendo uma questão conclusiva para esta etapa de discussão: é
possível conciliar a tradição com a transformação e modernização?
A autora Vivian
Catenacci, em seu artigo Cultura Popular: Entre a Tradição e a
Transformação, nos ajuda a compreender a relação entre esses campos
aparentemente opostos. É o que trabalharemos no capítulo 1.2 desta empreitada,
intitulado A Oposição Histórica da Cultura Popular e Cultura de Elite.
Meus sinceros
agradecimentos aos que dedicaram seu tempo a esta leitura de estreia. Espero
que este espaço seja frutífero de debate e que elucide algumas questões sobre o tema
proposto.
*Flâneur:
Vivian Catenacci relembra a utilização deste
conceito usado por Baudelaire, que significa o homem das multidões.