No fim da tarde, após o expediente de
trabalho da quarta-feira (dia 20), ouvi um barulho distorcido que partia do Ginásio Poliesportivo Olavo Calheiros,
na minha cidade de Murici/AL. Pelo pouco do som que consegui reconhecer à
distância, tive certeza de que se tratava de uma das festas juninas que
enfeitaram os dias muricienses. A tradicional zabumba, o triângulo e a sanfona
eram as ferramentas da alegria, e puxavam um forró arretado que botou todo
mundo pra dançar. A forrozança se tratava da 10ª edição do Arrasta pé na
AMADOS, para mais de 50 pessoas. Essas pessoas fazem parte do grupo da melhor idade, atendido pela associação. A AMADOS é uma ONG sem fins lucrativos que surgiu em 2006 e se destacou na cidade como um espaço que presta serviços sociais as famílias carentes de Murici, recupera jovens e infla ânimo aos que ainda buscam algum conforto na produção do artesanato. O evento Arrasta pé na AMADOS, ainda em pequena proporção, é uma espécie de confraternização interna para usuários dos serviços da associação e seus funcionários, que se multiplicam em dedicação. Entretanto, como veremos a seguir, a pequena festinha simbolizava um motivo a mais para viver, ou sobreviver.
AMADOS, para mais de 50 pessoas. Essas pessoas fazem parte do grupo da melhor idade, atendido pela associação. A AMADOS é uma ONG sem fins lucrativos que surgiu em 2006 e se destacou na cidade como um espaço que presta serviços sociais as famílias carentes de Murici, recupera jovens e infla ânimo aos que ainda buscam algum conforto na produção do artesanato. O evento Arrasta pé na AMADOS, ainda em pequena proporção, é uma espécie de confraternização interna para usuários dos serviços da associação e seus funcionários, que se multiplicam em dedicação. Entretanto, como veremos a seguir, a pequena festinha simbolizava um motivo a mais para viver, ou sobreviver.
O ginásio, palco direcionado aos
esportes que ainda promovem a inclusão de diversos jovens da cidade, agora era
reutilizado em favor do forró pesado,
principal personagem num lugarzinho repleto de comidas típicas e senhoras que
davam vida a uma quadrilha pra lá de animada.
Meio que sem querer, fui adentrando
naquele espaço gostoso e logo senti ótimas vibrações de quem tinha gosto pela
felicidade. De cara, meio acanhado, saboreei o colorido que vinha da pista de
dança improvisada, marcado em cada saia rodada, em cada senhorinha de vestido
abrilhantado, que de uma em uma quase que formavam um lindo arco-íris. O palco
da banda tipicamente junina era perto da trave onde muitos gols foram marcados,
que agora provocavam uma animação um pouco diferente, mas não menos intensa que
a alegria do êxito futebolístico. Quando me dei conta de que meu corpo já
estava sincronizado a acompanhar o compasso do sanfoneiro, me vem do meio do
arco-íris uma senhora que dançava com tamanha facilidade, parecia estar
caminhando sobre nuvens, parecia uma borboleta das mais belas em seu abrir de
asas quase que divino. Seu nome? Maria
das Dores da Silva. De onde era? Essa resposta era o que eu procuraria
saber a partir daquele instante.
Dona Maria não surgiu simplesmente dançando. Ela curiosamente tinha um copo de refrigerante quase que transbordando sobre a cabeça, mas incrivelmente não derramava uma só gota. A facilidade da dança decorria de muita paz pelo que estava fazendo, regrado a muita técnica. Não entendo absolutamente nada de dança, mas para qualquer leigo era visível que dona Maria tinha algo diferente das outras em termos de sacolejo.
Os minutos foram se passando e dona Maria rodeava toda a pista
improvisada dançando com a energia de uma menina que recentemente aprendeu os
primeiros passos. O copo de refrigerante continuava sobre a cabeça, e o que
começou como brincadeira passou a impressionar a todos os presentes. Nenhuma só
gota derramada e um recorde pessoal atingido. Mas quem veria aquilo e
atribuiria importância? Quem daria legitimidade ao feito daquela senhora? Por
isso busquei me aproximar.
Encurtando nossa distância, fui ao
seu encontro pensando “será que o copo
está colado na cabeça?”. No entanto, chegando lá, foi a única pergunta que
não fiz, depois de ter a certeza da experiência daquela jovem que passava pela
melhor idade. Apresentei-me e de supetão já desferi minha admiração dizendo: “A senhora é simplesmente incrível!”.
Meio sem entender, ou pouco acostumada com esse olhar mais interessado, dona Maria agradeceu aquele impulso da
entrevista e começamos a conversar.
Acompanhe a
entrevista com Maria das Dores da Silva:
Dona Maria,
quanto tempo a senhora tem de AMADOS?
Filho, tenho
uns 5 anos de AMADOS já.
Onde a
senhora aprendeu a dançar desse jeito?
Olha, eu
antes morava lá na capital e comecei a dançar no SESC. Fazia apresentação e
tudo.
O que mais a
senhora dança?
Oxe, danço de
tudo um pouco! A gente aqui dança guerreiro, dança pagode, coco de roda. Dança
tudo!
E quando a
senhora começou a sustentar o copo na cabeça desse jeito?
Ah, isso foi
lá em Pernambuco. Não lembro a data.
A senhora
também dançou por lá?
Sim, muito
tempo. Morei 12 pra 13 anos em Recife. Dançava muito lá. Foi lá que aprendi a
ter firmeza no corpo e a segurar o copo na cabeça sem derramar.
Só existem
mulheres no grupo de dança da AMADOS?
Só.
E se homens
quiserem entrar? É permitido?
Sim, claro. O
problema é que os homens não querem, meu filho. Eles tem medo, sabe?! A gente
bem que queria pra dançar, mas eles não vem, com medo. (risos).
O que tem
achado de bom nesses anos de associação?
É tudo muito
bom. A gente se sente como se tivesse na família da gente. Se diverte. Brinca.
Faz muita coisa.
E de ruim?
Olha, o ruim
é que essas festas não acontece direto, sabe?! O bom era que fosse sempre. Mas
nem sempre tem. Tem umas vezes no ano, depois não tem mais. Aí é esperar só pro
ano que vem pra ter festa assim. A gente queria mais festa assim, seria bom.
Dona Maria muito me
agradeceu pela iniciativa de contar um pouco de sua vida aos leitores deste
blog. Durante a entrevista improvisada, esqueci-me de perguntar a ela quantos
anos tinha, mas me convenci de tal forma de sua juventude pelo recente
desempenho que essa resposta não era tão necessária naquele instante.
Mais interessante que isso era a
forma como as demais senhoras interrompiam sua dança para prestarem atenção
naquela cena que acontecia: dona Maria
e eu, frente a frente numa conversa aberta. Era como se todas tivessem alguma
história para contar, como se todas quisessem expressar suas alegrias e
vontades sobre aquela associação. A AMADOS
ajuda muita gente, mas como toda entidade filantrópica, sobrevive de doações
dos parceiros e de uma pequena ajuda da prefeitura do município. Precisa
aumentar seu espaço, seu corpo de funcionários e sua estrutura interna para
servir alimentos e promover mais atividades de lazer. Na AMADOS, me fazendo valer das palavras da idealizadora do projeto, a
senhora Rita Tenório, podemos
afirmar que abundante mesmo é “Fazer as
coisas com amor.... Muito amor.”
Um bom número de pessoas necessitam
da AMADOS, algumas delas tem
história trágica e encontraram lazer e repouso nesta instituição. Para
sobreviver, a AMADOS precisa da
minha ajuda, da sua ajuda. Atualmente, a instituição desenvolve projetos de
artesanato, dentre eles, ensinar as senhoras a fazer fuxico, uma peça de artesanato decorativa característica de nossa
região. A ideia é que as senhoras e jovens envolvidos nessa produção coloquem
as peças à venda e faturem com isso. Portanto, doações de retalhos de pano são
muito bem-vindos. Além disso, claro, alimentos não perecíveis ajudariam
significativamente a compor o lanche desses integrantes que nem sempre tem o
que comer em casa.
Que tal
fazermos doações?
Me enviem e-mails para o endereço: wandersonjfgomes@gmail.com. Vou
orientá-los devidamente a realizar a doação que dará continuidade a felicidade
de pessoas como dona Maria. Seja um
parceiro ou parceira e faça com que os dependentes desse serviço se sintam cada
vez mais AMADOS.
Fotos: Ariston Denison.
