Em 1849 nasceu o brilhante político, jurista, escritor, diplomata e
membro fundador da Academia Brasileira de Letras Rui Barbosa (falecido em 1923).
Com ele, nasceram outras muitas formas de enxergar a sociedade, muitas formas
de materializar esses pensamentos e muitas formas, portanto, de explicar quem
somos e por onde deveríamos seguir, através de uma notável intelectualidade
para se manusear técnicas de várias áreas profissionais. Rumou em favor do
federalismo e do abolicionismo, sendo pioneiro em sua maneira de pensar e agir,
revolucionando, ao seu modo, um tempo de outros tempos.
Em contextos mais distantes, muitos e
muitos outros formatos de homenagem foram adotados, como uma maneira nacional
de agradecer a todos os serviços prestados por Rui Barbosa, figura destacável, politizada, pensadora, brilhante
jornalista e advogado. Numa dessas homenagens, a data de seu nascimento ficou
ligada as comemorações do Dia da Cultura
no Brasil: 05 de novembro. Todos os
anos, a Fundação Casa Rui Barbosa (FCRB),
localizada no Rio de Janeiro,
entrega a Medalha Rui Barbosa para personalidades que se destacam em
serviços prestados para a cultura nacional. Veja os homenageados deste ano de
2012: Luciano Coutinho, Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES); Marcelo Moreira Prado, procurador; Márcia Nogueira
Batista, arquiteta/paisagista; Sérgio de Morais, contador e colaborador da
Associação dos Amigos da Casa de Rui Barbosa; além dos servidores Leila
Estephanio de Moura, Benjamim Albagli e João Miguel Latorre Xavier.
Neste dia marcante, em Brasília, a presidenta Dilma Rousseff realiza mais uma edição
da Ordem
do Mérito Cultural, que teve início em 1995, e é considerada a mais importante honraria aos
prestadores de serviços da cultura nacional... Festa pomposa repleta de brilho,
que já homenageou 500 personalidades e premiou 60 instituições.
Essas atividades espalhadas pelos
principais Estados do Brasil são uma marca registrada desse 05 de novembro e é um lado da cultura
nacional que é fortemente veiculada nos mais diversos meios de comunicação. No
entanto, tem outro lado da cultura material e imaterial que dificilmente se
divulga... Aquele que nós presenciamos no dia-a-dia de nossas rotinas, num
Estado coronelista ainda rodeado de miséria e falta dos direitos basilares ao
indivíduo.
No universo cultural, o ato de homenagear certa instituição
ou personalidade é convertida em status de heroísmo. A homenagem é também uma ação que legitima
pessoas físicas ou jurídicas que travaram certas batalhas em campo hostil, e
obtiveram êxito. Assim é o campo da cultura no Brasil, especialmente em Alagoas...
Hostil. E muitos desses potenciais produtivos estão se perdendo num fluxo bem
maior do que as ações de reconhecimento. Todos os dias, projetos e instituições
morrem. Todos os dias, produtores e produtoras culturais largam o ofício (sem
repassá-lo, pois não desejam o salário de
fome ao próximo) e se dedicam a outras atividades que não os representam,
muito menos representam a história de suas comunidades. Todos os dias, a
atitude de pensar a cultura como meramente atividade de lazer e filantrópica acaba
com as esperanças de continuidade, de triunfo, de representação de quem somos. Para
se pensar a cultura é preciso pensar, e pensar também faz libertar... O pessoal
do topo da hierarquia teme isso. A cultura é a nossa representação. É o que ainda
nos torna humanos. É o que deixa nossos registros nesse mundo... O que nos diferencia dos outros animais. Já ouvi muitas vezes aqui na minha cidade que
cultura não enche barriga... Mas,
pergunto: somente comida enche o ser humano?
É por isso que estou me afastando do
glamour de certas realidades culturais em que vivemos. Estou me afastando, junto com
esse blog, dos carnavais de classe alta, das festas de hierarquias bem
delimitadas e de consumo que seleciona somente abastados, dos espaços de lazer selecionistas
e unilaterais que promovem a reprodução e não a libertação do conhecimento, da
imaginação e da ação. Estou me afastando, pois as expressões periféricas/marginais
são provas de condutas que ainda carregam consigo certo teor de um simbolismo
que me faz lembrar das lutas e conquistas do nosso povo. Nem o medo dessas
expressões alternativas/independentes se tornarem tendências num futuro próximo
me afasta dos olhos da comunidade. É exatamente por isso que, nesse Dia Nacional da Cultura, prefiro fazer
uma singela homenagem a alguns dos muricienses (gente da minha terra) que por aqui passaram, nesses cinco meses de
Cultura ao Lado, e que ainda sobrevivem, resistem bravamente. Esses que são
anônimos lá fora, esses que investem, mesmo que com extrema dificuldade, em si
mesmos, esses que são a resistência das tradições do nosso povo... Do povo de Murici... Do povo alagoano e brasileiro. A
esses que esculpem sonhos, que cantam músicas de esperança, que criticam suas
realidades através da arte, que são quase semideuses por fazerem coisas
inimagináveis com as próprias mãos, que enriquecem nossas vidas com cor e
entusiasmo quase que de outros mundos... A esses, que se desmancham em lágrimas com um simples “Parabéns! Ficou lindo...” (pagamento maior para eles não há!). A
esses, que me fizeram apaixonar e desenvolver esse projeto.
Aos que foram lembrados aqui e aos
que aqui ainda não passaram, o meu muito obrigado!
Viva a
cultura alagoana! Viva a cultura brasileira!
| Cavalhada muriciense. Uma das riquezas culturais que ainda vive. Por Wanderson Gomes. |
| Pintura em tecidos, da dona Marlene. Por Ariston Denison. |
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| Trabalho de artesanato desenvolvido por aqueles que formam a CAPS - Murici. Por Ariston Denison. |
| Senhor Sebastião. Compositor e contador de histórias de Murici. Por Wanderson Gomes. |
| Senhor Cícero. Artesão. Por Ariston Denison. |
| Arraiá colorido da AMADOS. Por Ariston Denison. |
| Senhor Coca. Artesanato em barro. Por Ariston Denison. |
| Equipe da CAPS - Murici. Venda das peças artesanais produzidas. Por Ariston Denison. |

