O blog Cultura
ao Lado abre espaço para um belíssimo texto que recentemente foi veiculado
no blog do nosso parceiro JMarcelo,
de União dos Palmares. A cada linha,
as palavras vão remontando uma história e experiência de vida que qualquer
muriciense deve facilmente se identificar. Como muriciense, faço questão de
divulgar o texto de Joelma Simões,
que retrata cronologicamente um dia na pacata Murici, suas grandezas, seus
desamores, seu povo e seus símbolos cotidianos.
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| Joelma Simões. |
Texto por Joelma Simões.
Há histórias que precisam de lápis, caderno e um
pouco de poesia. Começo assim a falar da cidade de Murici, a bem- aventurada
pela natureza.
Caminhavam por essas bandas um povo trabalhador
que, aliás, é característica nossa. Bom, quem trabalha no campo e/ou viaja sabe
que sombra é lugar divino para descansar, assim, o pé de Muricizeiro passou a
ser lugar de descansos, encontros, conversas e abrigo. Ali nascia a bela
Murici, banhada pelo Rio Mundaú, visitada por Lampião e abençoada pelo Frei
Damião.
A partir daí, a história pode seguir o seu rumo
e entre os vários aspectos que poderia tratar, escolho o aspecto ideológico, e
a minha ideologia é o povo. Muito mais do que uma cidade que dominou histórica
e religiosa duas outras cidades: Messias e Branquinha, Murici é a cidade que
abraça os seus. Inicialmente os viajantes e trabalhadores, e depois um povo
inteiro.
É a cidade onde nasci, e vivo até hoje. Nela me
sinto menos impotente, ando por suas ruas, piso em alguns tapetes, olho algumas
janelas e vejo o passar constante de gente. Gente de perna fina, grossa,
pequena, grande, torta, vistosa, branca, amarela, preta, parda... que passam
com seus toc toc, sinalizando a vida que acontece.
Se eu andar da minha casa uns cinco minutos em
direção a pista nova terei a imagem de um possível “cortiço”. É a portelinha
que desperta brava e heroicamente os seus, tenho a impressão de que lá o sol
parece beijar mais cedo o chão. As mulheres sentadas nas portas a conversar
coisas mil; os homens a se despedir, indo cumprir mais um dia árduo de
trabalho; as crianças de pés quase no chão, sem bolsas da Bárbie ou do Bem 10
vão à escola e parecem não acreditar em futuro.
Não sabem nada do amanhã, nem parecem
preocupadas com isso, na verdade estão mais preocupadas com a hora de voltarem
da escola, pois o sol e/ou a chuva terminam por tornar mais difícil a longa
caminhada de voltar para suas pequenas casas.
Por falar em casas, como Murici cresceu! À
noite, a luz dos postes a deixam tão enormemente visível; desaparecem as
pessoas, não se conta nem vivos e nem mortos. Tudo vira luz ou ausência, e um
silêncio desafiador nos convida a fecharmos nossas portas e esperar o nascer do
sol.
Ás 04h30min da manhã a cidade começa a
despertar; e, no ponto umas 05h30min começam a se misturar estudantes,
pacientes e trabalhadores; ás 06h20min o ponto fica novamente vazio, parece ser
dado uma pausa... sono. E, às 07h00min é a vez do comércio dá os seus primeiros
suspiros. Lindamente os estudantes começam a desfilar a caminho das escolas,
gente bonita demais! Emprestam encanto, e saem de cena com uma naturalidade que
parece ter sido ensaiado.
Nas escolas, especialmente na Escola Estadual
Professor Loureiro, que é aonde estudei e hoje leciono, bom, lá os portões se
abrem as 07h30min e, eu gosto de chegar mais cedo e observar o meu povo, uns
ainda com os olhos entreabertos, outros com eles já devidamente maquiados e
outros já acostumados a levantarem cedo. As conversas no pátio, as gargalhadas,
suas ousadias, tudo neles encantam.
Ao final das aulas, abrem-se os portões como se
abrissem as cortinas da passarela, é um desfile a céu aberto e o sol lança seu
olhar para nós, guiando-nos ao banquete em nossas casas.
A tarde sucede igual à manhã; à noite,
especialmente nos fins de semana, o ponto de encontro passa a ser a Praça Padre
Cícero, quem vem a Murici e não passa por lá, não conheceu quase nada. Lá está
os risos mais belos, os homens e mulheres mais bonitas, a juventude em massa.
No início da noite, os pais levam seus filhos para brincar, é lindo demais
vê-los lá! As 21h00min cede-se lugar para os jovens e adultos se
divertirem.
Na Praça Padre Cícero acontece um dos melhores
shows da região. Os quatro dias de Festival da Natureza; o primeiro dia é
dedicado a show gospel, mas na verdade, só são convidadas atrações evangélicas,
então acredito que seria bom repensar o termo, uma vez que gospel é um termo
abrangente demais, ou então, e acredito que seria a atitude mais coerente,
fazermos de fato um show com bandas católicas e evangélicas. Nos dias
seguintes, as melhores atrações são chamadas, e o povo faz uma festa linda. O
festival da Natureza é a celebração da maior parte da Mata Atlântica de
Alagoas, que faz pulsar o coração de Murici. Bom, é da Praça que sai um dos
maiores blocos carnavalescos da região, “O Tudo Azul”, tradição nossa que
também estão manchando de sangue de gente.
Murici virou uma mocinha linda! Encanta a todos,
pena que a oferta de emprego não seja o seu forte, e que muitos muricienses
precisem viajar e/ou irem embora para outros lugares. Pena que tenhamos que
está acenado e chorando partidas.
Talvez tenhamos que esperar muito ainda para que
nossa cidade sustente os seus. Pois, ela é como uma criança que sabe apenas
encantar, faltando aprender a cativar, cuidar e proteger.
Espero ansiosa que nela reine paz, alegrias e
que haja motivos para que mais histórias sejam contadas. Que o povo que partiu
sinta necessidade de voltar para rever familiares, amigos, ruas e praças.
Murici, é a cidade de um povo bom, Meu Deus! Um
povo solidário, receptivo, alegre e encantador.Murici é abençoada pela Mãe da
Graça!
