domingo, 10 de março de 2013

A Fábrica dos sonhos: produção cultural VS cultura em produção


A definição de produtor cultural se confunde com a própria definição de cultura. Suas abordagens são das mais variadas e atuantes nas mais distintas áreas. Mas, a definição que muito me agrada e se engaja na proposta deste texto é de pensar o produtor cultural como um profissional que por vezes é voluntarioso em desempenhar suas habilidades de articulação. No entanto, antes mesmo de me deter a situação específica que quero abordar, recomendo que vejam o completíssimo material produzido pelo blog Produção Cultural no Brasil. O trabalho reúne uma série de entrevistas com muitos nomes da produção cultural no país, articulando muitas das definições para esse meio profissional e compartilhando inúmeras experiências que me encantaram.


Voltemos ao nosso ponto de partida. O produtor cultural é um pensador, articulador, estrategista, que prevê resultados e percebe as estruturas com maior facilidade que outras pessoas. Ele é comunicativo. Ele organiza. É socializador. Ele multiplica ideias e estabelece soluções inventivas para superar barreiras corriqueiras durante o processo de formulação dos espaços culturais. Entretanto, mesmo sendo um agente de desenvolvimento de suas comunidades, essas mentes sofrem para conseguir superar as turbulências causadas por instituições que, na teoria, deveriam garantir seu êxito e que detém de poder em demasia. E, se a essas dificuldades for conferido um tempo diminuto para resolução, aí é que a coisa fica feia! Esse foi o caso do Coletivo A Fábrica, parceiro do blog Cultura ao Lado.

O Coletivo A Fábrica é uma união de inúmeros produtores culturais e desde 2012 estão aplicando métodos alternativos de se pensar a cultura popular na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Neste ano de 2013, o coletivo divulgou em rede social que a cidade palmarina iria sediar, através de seus esforços, uma das edições do Grito Rock, um evento de relevância mundial, que se multiplica em inúmeras bandas por onde passa.

Veja o cartaz do evento que não aconteceu:


Infelizmente, a boa notícia não durou por muito tempo.

Alegando dificuldades em concatenar esforços, tanto de setores privados quanto públicos (esse último impondo dificuldade ainda maior), o coletivo foi obrigado a cancelar o evento, o que gerou insatisfação de todos que, como eu, estavam ansiosos com o Grito Rock, principalmente por perceber que seria mais um impulso de autonomização do interior em comparação com a capital que hierarquicamente tem liderado a cena alternativa desde os tempos das cavernas.

Mas, percebendo a base do conceito de produtores culturais, que por vezes são forçados a se articular filantropicamente, o que poderia fazer o coletivo palmarino? Percebendo a negligência de muitos (ou todos) os municípios alagoanos em fortalecer atividades culturais que atendam invariavelmente a todos os grupos, como não seriam reféns dessa condição?

Fiz questão de tratar desse assunto, pela experiência que tive com esse pessoal em realizar uma importante ação cultural na culturalmente atrasada cidade de Murici. Na ocasião, organizamos a exposição artística intitulada “Irinéia: um sutil olhar”, no hall da Prefeitura Municipal de Murici. E sabe qual foi uma de nossas maiores dificuldades? Conseguir liberação para então colocarmos na parede os quadros da artista palmarina Irinéia Nunes, patrimônio vivo da cultura alagoana. Então, se pensarmos por essa linha de raciocínio, percebemos que um evento de magnitude ainda maior já começa com 90% de risco de dar errado (pelo menos, nos interiores alagoanos). Não por falta de competência do coletivo, não pela ausência de esforço individual dos membros envolvidos, dos colaboradores ou empresas interessadas, mas sim pelas instâncias publico-governamentais que tem obrigação de apoiar iniciativas que dinamizem a cultura em seus municípios, para que assim seja possível descentralizar o acesso às expressões musicais (centralizadas no forró ou no pagode).

Vivemos numa ditadura musical em Alagoas, meus amigos. E os cofres públicos não se opõem a isso, pois justamente esses são acorrentados a ideia de massificação dos eventos, que trazem lucro. Só esqueceram que o direito a entretenimento deve ser produzido para todos! E nem seria um esforço tão grande assim o fazer... Os espaços de rock em alagoas, por exemplo, são importantes aberturas para novos talentos musicais, comercializam artigos de artistas independentes e contribuem na reprodução da produção artística dos mesmos. Ou seja, formam grandes redes de apoio e solidarizam mão de obra e demais esforços pra então acontecerem. Com o apoio em dose correta, esses eventos poderiam perfeitamente se potencializar e atingir cada vez mais interessados, causando um leque de possibilidades de atrações e pluralizando atividades culturais nos municipais.

É preciso pensar. É preciso agir. Chega de cancelamentos de eventos/festivais interessantes  e alternativos por culpa daqueles que mais os deveriam apoiar.