A definição de produtor cultural se confunde com a própria definição de cultura. Suas abordagens são das mais
variadas e atuantes nas mais distintas áreas. Mas, a definição que muito me
agrada e se engaja na proposta deste texto é de pensar o produtor cultural como
um profissional que por vezes é voluntarioso em desempenhar suas habilidades de
articulação. No entanto, antes mesmo de me deter a situação específica que
quero abordar, recomendo que vejam o completíssimo material produzido pelo blog
Produção Cultural no Brasil. O
trabalho reúne uma série de entrevistas com muitos nomes da produção cultural
no país, articulando muitas das definições para esse meio profissional e compartilhando
inúmeras experiências que me encantaram.
O material está disponível
em>>> http://www.producaocultural.org.br/no-blog/o-que-e-um-produtor-cultural/
Voltemos ao nosso ponto de partida. O
produtor cultural é um pensador, articulador, estrategista, que prevê
resultados e percebe as estruturas com maior facilidade que outras pessoas. Ele
é comunicativo. Ele organiza. É socializador. Ele multiplica ideias e
estabelece soluções inventivas para superar barreiras corriqueiras durante o
processo de formulação dos espaços culturais. Entretanto, mesmo sendo um agente
de desenvolvimento de suas comunidades, essas mentes sofrem para conseguir superar as turbulências causadas por instituições que, na teoria, deveriam
garantir seu êxito e que detém de poder em demasia. E, se a essas dificuldades
for conferido um tempo diminuto para resolução, aí é que a coisa fica feia!
Esse foi o caso do Coletivo A Fábrica,
parceiro do blog Cultura ao Lado.
O Coletivo A Fábrica é uma união de inúmeros produtores culturais e
desde 2012 estão aplicando métodos alternativos de se pensar a cultura popular
na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Neste ano de 2013, o coletivo
divulgou em rede social que a cidade palmarina iria sediar, através de seus
esforços, uma das edições do Grito Rock,
um evento de relevância mundial, que se multiplica em inúmeras bandas por onde
passa.
Veja o cartaz do evento que não
aconteceu:
Infelizmente, a boa notícia não durou
por muito tempo.
Alegando dificuldades em concatenar
esforços, tanto de setores privados quanto públicos (esse último impondo dificuldade
ainda maior), o coletivo foi obrigado a cancelar o evento, o que gerou
insatisfação de todos que, como eu, estavam ansiosos com o Grito Rock, principalmente por perceber que seria mais um impulso
de autonomização do interior em comparação com a capital que hierarquicamente
tem liderado a cena alternativa desde os tempos das cavernas.
Mas, percebendo a base do conceito de
produtores culturais, que por vezes são forçados a se articular
filantropicamente, o que poderia fazer o coletivo palmarino? Percebendo a
negligência de muitos (ou todos) os municípios alagoanos em fortalecer
atividades culturais que atendam invariavelmente a todos os grupos, como não
seriam reféns dessa condição?
Fiz questão de tratar desse assunto,
pela experiência que tive com esse pessoal em realizar uma importante ação
cultural na culturalmente atrasada cidade de Murici. Na ocasião, organizamos a
exposição artística intitulada “Irinéia: um sutil olhar”, no hall
da Prefeitura Municipal de Murici. E sabe qual foi uma de nossas maiores
dificuldades? Conseguir liberação para então colocarmos na parede os quadros da
artista palmarina Irinéia Nunes,
patrimônio vivo da cultura alagoana. Então, se pensarmos por essa linha de
raciocínio, percebemos que um evento de magnitude ainda maior já começa com 90%
de risco de dar errado (pelo menos, nos interiores alagoanos). Não por falta de
competência do coletivo, não pela ausência de esforço individual dos membros
envolvidos, dos colaboradores ou empresas interessadas, mas sim pelas
instâncias publico-governamentais que tem obrigação de apoiar iniciativas que
dinamizem a cultura em seus municípios, para que assim seja possível
descentralizar o acesso às expressões musicais (centralizadas no forró ou no pagode).
Vivemos numa ditadura musical em
Alagoas, meus amigos. E os cofres públicos não se opõem a isso, pois justamente
esses são acorrentados a ideia de massificação dos eventos, que trazem lucro. Só
esqueceram que o direito a entretenimento deve ser produzido para todos! E nem
seria um esforço tão grande assim o fazer... Os espaços de rock em alagoas, por
exemplo, são importantes aberturas para novos talentos musicais, comercializam
artigos de artistas independentes e contribuem na reprodução da produção artística
dos mesmos. Ou seja, formam grandes redes de apoio e solidarizam mão de
obra e demais esforços pra então acontecerem. Com o apoio em dose correta,
esses eventos poderiam perfeitamente se potencializar e atingir cada vez mais
interessados, causando um leque de possibilidades de atrações e pluralizando
atividades culturais nos municipais.
É preciso pensar. É preciso agir.
Chega de cancelamentos de eventos/festivais interessantes e alternativos por culpa daqueles
que mais os deveriam apoiar.

